Fundação Iberê Camargo

26.01.2007

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1. Gostaria que você começasse falando sobre a sua formação e o início de sua carreira, as primeiras exposições e os caminhos que de lá surgiram.

Sempre desenhei quando pequeno, copiava imagens de qualquer tipo de livro desde os infantis aos de medicina (minha mãe é médica). Antes de entrar para a faculdade, fiz um curso de 3 dimensões no Parque Lage no começo de 97, e logo, seis meses depois fui aprovado para Faculdade de Belas Artes, com especialização em escultura, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fiquei durante sete anos. Fiz diversos cursos em outras universidades, aulas com artistas e teóricos, aprendendo muito fora da faculdade também.  Neste período pesquisei, conheci algumas pessoas fundamentais para o desenvolvimento do meu trabalho como professores e amigos, sendo assistente do Nelson Felix durante 5 anos. Simultaneamente aos meus trabalhos e faculdade comecei um projeto sonoro com mais dois amigos da universidade, que eram do curso de arquitetura, que intitulamos o nome do grupo de Kuarasy O Berab em meados de 2001. Fiz varias experiências no campo sensorial, exibi os Cubos, Fotograma 01 e Fotograma 02, Fotocópia-sombra. A partir daí surgiram novos caminhos e possibilidades como a primeira exposição que participei na UniversidArte, Rio de Janeiro, em 2000, onde apresentei “Cubos”.

2.O som e a música estão presentes em seguidamente em seu trabalho. De que forma o som te move?

A música contém e manipula um grupo de sons e silêncios que se organizam através do tempo, achando um padrão. Por isso que sempre quando tentamos compreendê-la em sua totalidade, ela já se modificou. Nos filmes, atua como uma personagem, às vezes como protagonista, assume uma presença. Em alguns de meus trabalhos o som e a música preenchem o espaço. A música é uma das mais abstratas manifestações artísticas, a “arte do efêmero”, onde ocorre principalmente no nosso cérebro, nos emocionam, tocam constantemente o espírito. Esse jogo do tempo físico e emocional que faz da música um conceito difícil de enquadrar.Tento criar com o “Kuarasy O Berab” – que significa em tupi antigo “O Sol brilha” – e o meu projeto individual, uma forma de dialogar espacialmente entre a paisagem, arquitetura e a memória, nos tele-transportando para qualquer lugar mentalmente, como é o caso do meu trabalho ‘Em Três Tempos’, realizado no Solar Grandjean de Montigny.  Gravei sons de uma loja foto-copiadora: pessoas falando, as máquinas e a atmosfera. Por 3 horas este som foi gravado e não editado, divido em dois momentos: uma hora e meia de um lado da galeria e o restante do outro lado. Na sala de exposição os sons capturados, abstratos, eram construídos cerebralmente pelos visitantes. Com o Kuarasy o Berab, fazemos intervenções tocando sons e música sempre em lugares diferentes: galerias de arte, museus e construções inacabadas. Produzimos um som diferente em cada apresentação, nunca se repetindo.

3. Em seus trabalhos também, por vezes, há mediação da tecnologia. Como você se posiciona frente a ela?

Na minha infância escutava muitos vinis com meus pais. Bandas como Jethro Tull, Pink Floyd, Blitz e artistas nacionais como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gonzaguinha, entre outros eram freqüentes. Naquela época agente também projetava slides na parede e era uma coisa que me fascinava. Não vejo grandes problemas enquanto a tecnologia. Hoje em dia e cada vez mais, somos verdadeiros homens-máquina. São ferramentas que estão aí para serem utilizadas. È importante frisar que primeiramente depende da idéia do trabalho a ser feito e depois a escolha de como ele será apresentado.  Hoje vivemos numa época na qual se digitaliza tudo. Os conceitos que exploro nos meus trabalhos atualmente são melhores apresentados em conjunto a essas mídias, onde suas formas se relacionam entre si, comigo e o espectador/participador, criando um sistema. Na vídeo-instalação Situação 01, são expostos quatro monitores distintos. Gravei um percurso de uma menina: ela sai de um ponto, corre, abaixa, pega uma flor e cheira. São separados quatro momentos deste percurso onde cada um desses passa em seu respectivo monitor, em loop. A velocidade é alterada em todos que passam simultaneamente. Neste trabalho ocorre uma não-sincronia entre os movimentos da personagem – como o tempo de colher uma flor, por exemplo – e sua significação em nosso real (o ato de colher e cheirar uma flor nunca teria uma dimensão neurótica tal qual apresentada no vídeo). Tal articulação entre tempo e imagem também é possível no vídeo e no som que potencializam as relações espaço-tempo. Outro exemplo também seria a instalação ‘Todos Habitantes da Terra’, no Castelinho do Flamengo em 2004. Uma instalação que ocupava duas salas em diferentes pisos. Na sala abaixo ovos de gesso quebrados saindo óleo de carro queimado, fazendo um espelho negro em todo o piso e uma câmera de segurança; na sala acima dois monitores, um passando um vídeo comigo quebrando os ovos e no outro uma imagem em tempo real da sala onde os ovos estavam contidos, num plano que em determinado momento do vídeo, as duas imagens dos monitores ficavam iguais e o reflexo do visitante no espelho produzido pelo óleo também era capturado pelo monitor com a imagem em tempo real. Uma analogia ao Mito da Caverna de Platão e a escultura de Brancusi, Inceputul Lumii, onde a presença da luz é fundamental.

4. Alguns trabalhos do início dos anos 2000 utilizam formas geométricas, como Cubos, Fotograma 1 e Fotograma 2. Fotograma 1 e 2 também trabalham com a sombra. Queria que você falasse um pouco sobre esses trabalhos.

Na época da produção dos Cubos eu estava lendo bastante sobre o Neoconcretismo, o conceito de cor- tempo-luz, os Metaesquemas, de Hélio Oiticica, como ele trabalhava o espaço, os artistas que trabalharam ou trabalham a luz como matéria prima. Interessava-me, e ainda me interessa muito, sobre a questão do lugar explorado pelos artistas, os da década de 70 e os de hoje como Nelson Felix, Nuno Ramos, Walter de Maria, André Parente, Robert Smithson, Antônio Dias, Richard Serra entre outros. Tenho afinidade com matemática e geometria.  Os cubos fazem parte desse sistema relacional, onde apresento três cubos de madeira, em momentos distintos: um é coberto com liquens e musgo, outro é comido por cupins e outro é queimado. Existe uma relação temporal entre estes três estados do cubo. Embora sejam três cubos de madeira do mesmo tamanho, 10 x 10 x 10 cm, apresentam-se diferentemente. Existe uma relação orgânica também. Na natureza existe um padrão, uma pattern, que pode ser encontrado tanto na arte como na música, as leis de Fibonacci, Pitágoras. Os trabalhos Fotograma 01 e Fotograma 02 03/06/2003-14:30h são a partir desta minha aproximação com estudos sobre fotografia, luz, matemática, geografia e música. Fiquei vendo vários trabalhos do Man Ray entre outros que faziam fotograma, os trabalhos de Dennis Oppenheim. Pensei num fotograma em escala maior, utilizando a luz solar. Fiz o Fotograma 01. Uma das relações com os cubos é uma forma geométrica onde busco uma certa ‘organicidade’: quadrado + grama.  Observei o padrão que compõe o prédio de Letras da UFRJ, lugar onde realizei o Fotograma 02 03/06/2003 às 14:30h. Neste trabalho eu marco a sombra do prédio do dia 03/06/2003 às 14:30h, dando estas mesmas coordenadas para o título. Faço o mesmo processo do fotograma, bloqueando a luz, mas neste caso a superfície não é o papel fotográfico, mas sim a grama. Cubro a grama do tamanho da sombra do prédio neste determinado horário com um plástico preto. Após dez dias, retiro o plástico. Provoco a não-fotossíntese durante este período tornando mais clara a parte que foi coberta do que o resto do gramado. A grama volta ao seu estado normal em duas semanas. Uma vez a grama ‘pálida’, a futura sombra projetada pelo prédio só irá se justapor perfeitamente a marcação prévia no mesmo momento do próximo ano, causando assim um efeito de sincronia espacial entre a sombra e a marca. Apesar do efeito acima descrito, a sobreposição de um tempo passado a um presente contínuo concentra a idéia de dois tempos distintos em um só espaço.

5. Quais são os temas que tem te interessado pensar e trabalhar?

Questões referentes ao tempo, espaço, representação, presença e memória; tento realizar projetos que dialoguem com a arte, arquitetura, música, paisagem.

6. A memória, bem como a noção de presente/passado estavam presentes na exposição que você fez no CCSP. Gostaria que você falasse sobre essas questões e também sobre o trabalho.

A mente é o termo mais comum utilizado para descrever as funções superiores do cérebro, particularmente aquelas das quais nós somos conscientes, tais como o pensamento, a razão, a memória, a inteligência e a emoção. A memória é a base do conhecimento, lugar onde guardamos nossas lembranças, nosso passado. É a capacidade de reter conhecimento, internamente ou externamente (memória artificial). É através dela que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida. Neste trabalho realizado no Centro Cultural São Paulo, o 3’ (três segundos), consiste em uma instalação: um monitor de 14 polegadas; um aparelho que retarda o tempo da imagem (video-delay); uma filmadora e um aquário com um peixe (carassius arautus). O aquário com o peixe-dourado, carassius arautus, se encontra no centro da instalação. Em uma das extremidades, uma filmadora captura sua imagem por todo o período expositivo. Na outra extremidade, a televisão posicionada defronte ao aquário, exibe o cotidiano do peixe vivo através do delay de três segundos produzidos pelo aparelho. Assim o peixe-dourado, que de acordo com alguns estudos científicos possui uma memória de três segundos, pôde rever seu passado recente o qual já não estava mais ao seu alcance. Para quem vê o trabalho, percebe a simultaneidade do tempo passado e do tempo presente, suas ações anteriores no monitor e o peixe. Este trabalho representa simbolicamente a nossa falta de memória recente e a perda do tempo como duração, pretendendo refletir questões como a do tempo e da memória nos nossos dias.

7. Quais são os teus próximos projetos?

Quero continuar as minhas pesquisas, realizar alguns trabalhos referentes a memória coletiva, o tempo e suas diversas manifestações, enfim, tratar mais nas questões onde o meu trabalho se manifesta, ter bases e subsidio para me aprofundar mais.

entrevista em PDF AQUI

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